Crimes pela janela: uma resenha do best-seller A Garota no Trem

Por - 07:28






Um thriller psicológico é tudo que alguém precisa num dia nublado, meio chuvoso e tristonho. Combine a leitura com um bom café ou chocolate quente e fica perfeito pra ler A Garota no Trem. Paula Hawkins sabe perfeitamente como conduzir o leitor numa velocidade frenética, com curiosidade à flor da pele, para um desfecho só conhecido nas páginas amareladas do final, quando o crime (sim, há um crime) é desvendado. Até lá, noites em claro lhe aguardam!


Quem é Paula Hawkins? 

Uma autora que decidiu, em 2008, trocar a carreira de jornalista para se aventurar na nova vida de escritora. Escreveu alguns livros com o pseudônimo de Amy Silver, mas não obteve sucesso. Sua escrita é sombria, por isso não podia se dar ao luxo de falar sobre castelos e mocinhas.


Quando ela se revela, a reviravolta em sua trajetória surte efeito. A moradora de Londres se vê em meio ao estrelato. A Garota no Trem vende cerca de quatro milhões de exemplares e é traduzido para 44 línguas ao redor do mundo.


Resenha


Todos os dias, durante os chuviscos da pacata cidade de Ashbury, Rachel pega o trem das 8h04 da manhã e parte rumo ao seu trabalho. A locomotiva enfrenta o sinal vermelho sempre próximo a uma casa onde ela fantasia e observa, dia após dia, os moradores. Sua fantasia é tão profunda, que até nomes (Jess e Jason) ela dá ao casal que vê diariamente.

Rachel já morou ali. Na mesma rua. Mas agora a casa em estilo vitoriano, que um dia foi seu lar, pertence ao ex-marido Tom, à sua nova mulher e à sua filha.

Rachel é solitária e ainda está com o coração partido. Não esquece o passado e enfrenta seus problemas bebendo gim tônico e vinhos baratos. Ela não consegue seguir em frente e é a típica granada prestes a explodir; a pessoa que dá vexame no trabalho e persegue o ex-companheiro.


“DE VAZIO, EU ENTENDO. COMEÇO A ACHAR QUE NÃO HÁ NADA A SE FAZER PARA PREENCHÊ-LO. FOI O QUE PERCEBI COM AS SESSÕES DE TERAPIA: OS BURACOS NA SUA VIDA SÃO PERMANENTES. É PRECISO CRESCER AO REDOR DELES, COMO RAÍZES DE ÁRVORE AO REDOR DO CONCRETO; VOCÊ SE MOLDA A PARTIR DAS LACUNAS.” (PG.114)


Tom, por sua vez, é focado e sério. Reestabeleceu sua vida ao lado de Anna e sua filha Evie.


As viagens de fuga 


Em uma de suas viagens de trem, Rachel presencia uma cena estranha no lar daquelas pessoas que examina sempre que o trem para abruptamente. Quando lê os jornais, se depara com a notícia de que Jess, que na verdade é Megan, está desaparecida.

“HÁ UM MONTINHO DE ROUPAS DO OUTRO LADO DO TRILHO DO TREM. UM TECIDO AZUL-CLARO – UMA CAMISA, TALVEZ – EMBOLADO COM ALGO DE UM BRANCO ENCARDIDO. DEVE SER PARTE DO CONTEÚDO DE UM SACO DE LIXO JOGADO EM MEIO ÀS ÁRVORES ESPARSAS NESSA ENCOSTA À MARGEM DA LINHA DO TREM”. (PG.11)


Convencida de que pode ajudar no desfecho do caso, Rachel procura a polícia, mas quem acreditaria em uma mulher que é vista bêbada constantemente e tem traços da memória perdida após os porres?

“ESTOU EXAUSTA, A CABEÇA PESADA DE TANTO SONO. TODA VEZ QUE BEBO, DIFICILMENTE DURMO BEM. APAGO NA CAMA POR UMA OU DUAS HORAS, ENTÃO ACORDO, COM MEDO DE TUDO E COM NOJO DE MIM”. (PG.41)


A Garota no Trem deixa os leitores divididos entre a raiva e a pena por Rachel e todos os outros personagens. Mas podemos encontrar pessoas assim durante nossa vida, o que torna o livro ainda mais verossímil e fácil de ler, pela empatia.

A autora conduz a história de maneira ágil, leve e bastante misteriosa em grande parte, o que deixou os leitores instigados e ajudou no sucesso de vendas.

“ONTEM À NOITE, SONHEI QUE ESTAVA NA FLORESTA, CAMINHANDO SOZINHA. COMEÇAVA A AMANHECER OU ANOITECER, NÃO SEI BEM, MAS HAVIA MAIS ALGUÉM ALI COMIGO.” (PG.203)


Os capítulos são alternados entre Rachel, Anna e Megan, nos fazendo enxergar traços da vida de cada uma: seus medos, preocupações e sonhos.

As três personagens são muito diferentes e, ao mesmo tempo, muito iguais; a autora faz questão de explorar isso e nos mostrar um lado não tão bom e profundo de cada uma delas, o que consequentemente, nos faz julgar nossos próprios pensamentos.

“TODO MUNDO ME DISSE QUE ERA LOUCURA EU ACEITAR ME MUDAR PARA A CASA DE TOM. MAS TODO MUNDO TAMBÉM ACHOU LOUCURA EU ME ENVOLVER COM UM HOMEM CASADO, AINDA POR CIMA CASADO COM UMA ESPOSA EXTREMAMENTE INSTÁVEL, E NISSO PROVEI QUE ESTAVAM ERRADOS”. (ANNA, PG.132)


Muitas mulheres perdem o controle ao término de um relacionamento, e talvez possam ver em Rachel um exemplo do que não fazer e não seguir; podem tirar uma lição e não perder o controle para seguir a diante. É difícil, mas nunca impossível.

Os desafios da vida amorosa e o que está em jogo além dele são mostrados claramente por Paula Hawkins, fazendo com que o leitor possa analisar suas escolhas e seu modo de enxergar quem está ao redor. O sucesso do livro fica claro a cada página virada, a cada lágrima escorrida e torcida por uma ou outra personagem. É tocante e emociona, faz com que você se questione sobre certas decisões da protagonista, o que faria no lugar dela ou o que faria se sua vida fosse como a dela.

Viciante e aterrorizante, a obra é leitura obrigatória para os que apreciam um enredo que provoca o leitor. Fiquem atentos, os lapsos na memória de Rachel podem contaminar você também…

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